domingo, 15 de janeiro de 2012

Uma realidade tão real quanto a realidade

 

Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Adictas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Cartográficas.

Suáres Miranda: Viajes de Varones Prudentes, livro quatro, cap. XLV, Lérida, 1658

 

Existe melhor representação da realidade senão a própria realidade? Em seu texto, Suáres Miranda exemplifica muito bem como uma representação se torna inútil quando idêntica ao objeto representado, qual é a utilidade de um mapa em tamanho real?

 

Magritte_1933_La condition humaine

Em seu quadro “A condição humana” de 1933, Magritte cria uma pintura onde um quadro, a frente de uma janela, oculta parte da vista, essa parte então é representada pelo próprio quadro formando uma paisagem completa.

Tanto o mapa quanto o quadro criam uma camada sobre a realidade, essa camada pode chegar a ser tão perfeita que se iguala a própria realidade e nesse ponto se torna inútil.

Vejo essa situação acontecer atualmente, contamos com tantas intervenções entre nós e o mundo, intervenções tão perfeitas possibilitadas pela ciência e tecnologia, que ficamos cada vez mais longe da realidade, estamos cada vez mais alheios ao mundo, as pessoas e a vida.

Vivemos em uma realidade tão real quanto a realidade.